Ela acordou. Pisou no tapete macio. Abriu
a janela. Só então abriu os olhos. Os seus lindos olhos grandes, castanhos e de
ressaca refletiam aquele céu cinza, que fazia as nuvens ficarem com suas bordas
pretas e criavam formas esquisitas e abstratas, mas Ela via aquilo tão bonito.
Sentia uma espécie de estima por aquilo que se debruçava sobre seu olhar. Ela
tocou na sua camisola branca, e percorreu seu corpo com a ponta dos dedos.
Tocou o cabelo, esfregou os olhos. Apoiou-se na janela e sorriu. Ela se sentia
livre, pura, acordada, viva. Era como se o mundo sorria como resposta ao seu
sorriso e entrava numa sintonia superiormente interessante, em cada coisa no
seu tempo e espaço. Engraçado, ela que sempre se achou esquisita, deslocada,
hoje se via ali, parada, diante de um mundo que se estendia do lado de fora da
sua janela, do seu coração.
E olhava
para esse mundo sem dor, ainda que no fundo doesse. Ainda que lá no seu âmago,
tinha todas as suas mágoas, uma a uma, guardadas, selecionadas, separadas,
filtradas. Ela tinha muito pra contar, ela queria ter o mar, o mundo, queria
tudo em suas mãos. Ela queria poder seguir com a certeza de que mais nada a impediria, que a porta permanecesse aberta a qualquer custo, pra ela ir e voltar, e errar
e ficar tudo bem.
Ela, além dela
mesma, é um pouco de mim. Ela além dela mesma é um pouco de todos nós. Que
buscamos sempre por algo que nos dê segurança, que não nos faça sentir culpa ou
arrependimento, ou que pelo menos acabe com nossos arrependimentos certos, que
nos faça mudar. E talvez seja tudo isso que buscamos, a mudança. E Ela?
Ah, Ela espera que
muita coisa mude. Ela quer ser prudente, madura, independente. Ela quer
encontrar o que sempre procurou. Ela quer crescer com as falhas e com os
tapas na cara que Ela já levou e levará. Ela quer se sentir realizada com
aquilo que escolheu. Ela quer permanecer sempre se dando bem consigo mesma. Ela
quer levar arte às pessoas, seja qual for a pessoa ou a arte. Ela quer olhar
pra trás sempre com a sensação de orgulho do que fez, mesmo quando tudo parecia
injusto demais. E Ela, principalmente, quer a porta aberta e a lembrança do
caminho de volta ao seu lar, aonde quer que seu lar esteja.
Dá um gostinho de esperança. Me identifiquei. ;)
ResponderExcluir