quarta-feira, 15 de maio de 2013

Ela (...)


Ela acordou. Pisou no tapete macio. Abriu a janela. Só então abriu os olhos. Os seus lindos olhos grandes, castanhos e de ressaca refletiam aquele céu cinza, que fazia as nuvens ficarem com suas bordas pretas e criavam formas esquisitas e abstratas, mas Ela via aquilo tão bonito. Sentia uma espécie de estima por aquilo que se debruçava sobre seu olhar. Ela tocou na sua camisola branca, e percorreu seu corpo com a ponta dos dedos. Tocou o cabelo, esfregou os olhos. Apoiou-se na janela e sorriu. Ela se sentia livre, pura, acordada, viva. Era como se o mundo sorria como resposta ao seu sorriso e entrava numa sintonia superiormente interessante, em cada coisa no seu tempo e espaço. Engraçado, ela que sempre se achou esquisita, deslocada, hoje se via ali, parada, diante de um mundo que se estendia do lado de fora da sua janela, do seu coração.
 E olhava para esse mundo sem dor, ainda que no fundo doesse. Ainda que lá no seu âmago, tinha todas as suas mágoas, uma a uma, guardadas, selecionadas, separadas, filtradas. Ela tinha muito pra contar, ela queria ter o mar, o mundo, queria tudo em suas mãos. Ela queria poder seguir com a certeza de que mais nada a impediria, que a porta permanecesse aberta a qualquer custo, pra ela ir e voltar, e errar e ficar tudo bem. 
Ela, além dela mesma, é um pouco de mim. Ela além dela mesma é um pouco de todos nós. Que buscamos sempre por algo que nos dê segurança, que não nos faça sentir culpa ou arrependimento, ou que pelo menos acabe com nossos arrependimentos certos, que nos faça mudar. E talvez seja tudo isso que buscamos, a mudança. E Ela?
Ah, Ela espera que muita coisa mude. Ela quer ser prudente, madura, independente. Ela quer encontrar o que sempre procurou. Ela quer crescer com as falhas e com os tapas na cara que Ela já levou e levará. Ela quer se sentir realizada com aquilo que escolheu. Ela quer permanecer sempre se dando bem consigo mesma. Ela quer levar arte às pessoas, seja qual for a pessoa ou a arte. Ela quer olhar pra trás sempre com a sensação de orgulho do que fez, mesmo quando tudo parecia injusto demais. E Ela, principalmente, quer a porta aberta e a lembrança do caminho de volta ao seu lar, aonde quer que seu lar esteja.